Sexta feira da Vigésima Primeira Semana do Tempo Comum. Neste dia a liturgia nos traz a memória do martírio do profeta João Batista. Uma morte trágica, tramada no banquete da morte, pondo fim a trajetória do Precursor, aquele que veio antes, preparando os caminhos do Senhor! O martírio inaugurando a história do cristianismo, que será marcado por centenas de milhares de outras vidas ceifadas, a caminho do Reino. Na procura do Reino, muitas outras vidas foram dadas no testemunho fiel de homens e mulheres, que abraçaram, com fidelidade, a proposta do projeto de Deus, e fizeram o seguimento radical do mistério de Deus revelado pela encarnação de seu Filho na história da humanidade.
A memória do martírio de São João Baptista associa-se à Solenidade da sua Natividade, que se celebra em 24 de junho. João era primo de Jesus, concebido por uma mulher considerada estéril, de modo tardio, por Zacarias e Isabel, ambos descendentes de famílias sacerdotais. O nascimento de João é colocado cerca de seis meses antes do nascimento de Jesus, segundo o episódio da Visita de Maria a Isabel. Por outro lado, a data da sua morte, ocorrida entre os anos 31 e 32, remonta à dedicação de uma pequena basílica, do século V, no lugar do seu sepulcro, em Sebaste da Samaria. A celebração do martírio de São João Batista tem origens antigas. Seu culto já existia na França, no século V, e em Roma, no século seguinte.
Quem tira a vida do profeta foi um governador sanguinário e corrupto: Herodes Antipas (20 a.C-39), tetrarca da Galileia. Tetrarca era um governante que chefiava um quarto de uma região, um principado, ou até mesmo um reino. Nasceu na Judeia (hoje, região pertencente a Israel), época em que o território era dominado pelo imperador Otávio Augusto, que governou o Império Romano entre 27 a.C. e 14 da era cristã. Herodes Antipas, era filho da samaritana Maltace e de Herodes I o Grande, rei da Judeia, que ao morrer, em 4. a.C. Por volta do ano 20, para enaltecer o imperador romano, Tibério (27 a.C.-14), Antipas construiu a cidade de Tiberíades, às margens do mar da Galileia, e fez dela a sede de seu governo. A cidade se tornou um dos maiores centros do judaísmo.
A memória de Herodes Antipas está vinculada historicamente à morte de João Batista e de Jesus de Nazaré, fatos esses relatados nos Evangelhos. Como está descrito no texto de Marcos no dia de hoje, a causa principal do martírio do Batista, foi uma mulher: Herodíades, atual esposa de Herodes Antipas, ex-esposa do seu irmão de criação. Marcos descreve que João foi preso por ter denunciado este casamento ilegal. Durante a festa de aniversário de Herodes, a filha de Herodíades, Salomé, dançou em homenagem ao rei, que era fascinado por ela: se ela dançasse, ele lhe permitiria pedir o que quisesse, até mesmo a metade do seu reino. Depois de consultar a mãe, ela pediu a cabeça de João Batista. Desconcertado, não queria aceitar, mas não pôde recusar, porque lhe havia prometido. Uma tragédia anunciada, como bem sintetizou o Papa Francisco: “quatro personagens: o Rei Herodes ‘corrupto e indeciso’, Herodíades, esposa do irmão de criação do rei, que ‘só sabia odiar’, Salomé, ‘a dançarina vaidosa’ e ‘o profeta decapitado na solidão da sua cela’”.
João Batista, o Precursor, foi um mártir, que sempre dedicou a sua vida, ao anúncio da chegada do Messias. Homem simples, mas sabia qual era o seu lugar na História da Salvação. “O maior homem, nascido de mulher”, como disse Jesus em Lucas 7,28. Sua simplicidade e humildade superava qualquer tipo de prepotência e arrogância, mesmo sabendo estar no momento certo e na hora certa: “É preciso que ele cresça”. (Jo 3,30); “Eu não mereço nem sequer desamarrar a correia das sandálias dele”. (Jo 1,27) O Batista não é rival de Jesus. Confessa claramente que sua missão é tornar Jesus conhecido e seguido, e não se servir d’Ele como trampolim para angariar seguidores para o seu grupo. João tinha consciência de que a sua missão era testemunhar com suas ações, preparando o caminho para as pessoas chegarem até Jesus. e ele foi sincero, não querendo o lugar da pessoa que ele está testemunhando: o Messias.
Esta perícope de Marcos de hoje nos mostra que a morte de João Batista apresenta o destino de Jesus e todos aqueles e aquelas que o seguem. A morte brutal de João Batista anuncia a morte de Jesus. Os compromissos que obrigaram Herodes a cortar a cabeça do Precursor vão levar, com muito maior razão, as autoridades a tramar e exigir a execução de Jesus. Isso porque tanto João como Jesus põem em risco os princípios éticos, morais, econômicos e políticos da sociedade daquela época. Quem segue os passos de Jesus com fidelidade, sabe de antemão, que também estará sujeito a passar pela mesma experiência de rejeição pelos que se opõem ao projeto do Reino. A fidelidade no profetismo é missão de quem segue Jesus de Nazaré. Foi por este motivo que Jesus antecipou: “Felizes os que são perseguidos, por causa da justiça do Senhor, porque o Reino dos Céus há de ser deles!” (Mt 5,10)
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