Quinta feira da Vigésima Primeira Semana do Tempo Comum. Neste 240º dia do ano, a comunidade católica está em festa. Se ontem foi o dia dela, hoje é o dia dele. Estamos celebrando hoje a memória do filho de Santa Mônica, Santo Agostinho, bispo e doutor da Igreja. Agostinho nasceu no dia 13 de novembro de 354, em Tagaste, África. Foi educado na fé católica pela sua mãe, mas não seguiu exemplo dela. Um homem muito inteligente e dedicado aos estudos que, com os seus escritos, influenciou o pensamento da Igreja e da vida cultural do Ocidente e do mundo todo. Seu legado permanece vivo, através de sua vasta obra, onde podemos também nos beneficiar dos frutos de uma vida que se deixou transformar pela graça de Deus.
Apesar de ter sido educado por sua mãe na fé católica, Agostinho só foi batizado aos 32 anos, por Santo Ambrósio, na catedral de Milão. Passou a conhecer a verdade, os próprios ensinamentos de Jesus de Nazaré, a quem dirige uma oração belíssima nas suas Confissões: “Tarde Vos amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Estáveis dentro de mim e eu estava fora, e aí Vos procurava; e disforme como era, lançava-me sobre estas coisas formosas que criastes. Estáveis comigo e eu não estava convosco”. Este registro ele o faz numa de suas mais importantes publicações: “As Confissões”— escritas em 13 livros. Uma espécie de autobiografia, confessando a sua própria miséria diante da grandeza de Deus. Nesse diálogo com Deus, ele revive a sua história, enxergando a miséria dos seus pecados à luz de Deus, por isso as confissões são também um hino de louvor ao Senhor.
Santo Agostinho soube a medida do amor, que ele definia como o amor sem medida. Quando dos meus estudos de Teologia (1985-1988), me apaixonei pelos escritos de Santo Agostinho. Vasculhei a Patrística, corrente associada a ele. Este foi um período da filosofia cristã que se desenvolveu entre a Antiguidade e a Idade Média. Agostinho foi um dos principais expoentes da Patrística, tendo como objetivo criar as bases filosóficas para o cristianismo, integrando a filosofia clássica, especialmente o neoplatonismo, à teologia cristã. Ele é considerado o “doutor da graça”, não somente por ter ensinado como ela opera em nós, mas porque é a prova de como podemos ser totalmente transformados por ela, se assim o permitirmos, claro! Aquele que antes não tinha forças para largar o pecado, deixou-se tomar pela Graça de Deus, como está descrito no Catecismo da Igreja: “porque é Ele próprio que começa, fazendo com que queiramos e é Ele que acaba, cooperando com aqueles que assim querem”.
Nesta mesma perspectiva retórica de Santo Agostinho, prosseguimos com a reflexão do Evangelho de hoje. Jesus respondendo a pergunta feita pelos discípulos anteriormente: “Dize-nos quando vai acontecer isso, e qual será o sinal da tua vinda e do fim do mundo?” (Mt 24,3) A pergunta tem a ver, porque Jesus havia falado para eles acerca dos acontecimentos do fim dos tempos, ou seja, numa demonstração escatológica. Lembrando que a Escatologia é o estudo das “últimas coisas”, um ramo da teologia e também da filosofia, que estudam os eventos finais da história humana e do mundo, incluindo, inclusive o destino final da pessoa, após a morte e a consumação do universo. A palavra vem do termo grego “eschatos” (último) e logia (estudo) e, na perspectiva cristã, focando em tópicos como a segunda vinda de Jesus, o Juízo Final e a a vida na eternidade, onde estaremos um dia.
Jesus dá o recado aos discípulos de forma clara e objetiva: “Ficai atentos! porque não sabeis em que dia virá o Senhor”. (Mt 24,42) Ninguém sabe exatamente o dia e a hora em que isto vai acontecer. Por mais que alguns dentre nós, se achem portadores desta verdade, e a anunciam equivocadamente aos membros de sua denominação religiosa, são os falsos profetas, que se colocam no lugar de deus. Jesus, inclusive alerta os seus discípulos sobre estes personagens da vida real: “Cuidado com os falsos profetas: eles vêm até vocês vestidos com peles de ovelha, mas por dentro são lobos ferozes”. (Mt 7,15) Estes se apresentam como mensageiros de Deus, mas na verdade transmitem mensagens falsas, enganosas e hipócritas, buscando benefício próprio, poder, vantagens ou reconhecimento.
Jesus não responde diretamente a pergunta dos discípulos, dizendo o dia e a hora em que tudo vai acontecer. Ele apenas pede aos discípulos para ficarem atentos e vigilantes. Sim, porque a tarefa do seguidor e da seguidora de Jesus é testemunhar com fidelidade sem desanimar, dando continuidade às mesmas ações de Jesus. A espera da plena manifestação d’Ele e do mundo novo por Ele prometido impede, de um lado, que nos instalemos comodamente na situação presente; e de outro lado, evitemos nos desanimar, achando que o projeto de Jesus é difícil, irrealizável, distante e inviável. Enquanto esperamos por este dia, devemos continuar fiéis no serviço à comunidade, na construção do Reino, sem cair na tentação de relaxar na prática da justiça, diante da demora do Senhor. Como cantamos nas CEBs: “Venha teu Reino Senhor! A festa da vida recria! A nossa espera e ardor, transforma em plena alegria!” Ou como dizia Santo Agostinho: “enquanto houver vontade de lutar haverá esperança de vencer!”
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