Francisco (Chico) Machado. Missionário e escritor.

Terça feira da oitava da Páscoa.
E assim vamos nós, rumo à Vida Nova. A vitória triunfante de Jesus revitaliza o nosso existir, sob a perspectiva de Deus. Com este acontecimento paradigmático podemos repetir com o Apóstolo Paulo: “Viva eu, já não eu; viva Cristo em mim!” (Gl 2,20) Acreditar e testemunhar o Cristo Ressuscitado é colocá-lo no centro da nossa vida, a ponto de poder dizer com todas as letras: “Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim”. Este é o desafio daquele e daquela que faz a sua adesão ao Projeto de Deus, revelado por Jesus dentro da história humana.

19 de abril. Dia de luta, resistência e também de luto para os Povos Indígenas. Não há muito que comemorar, mas de muito lutar, para fazer valer os seus direitos à vida, à cultura, aos saberes tradicionais ancestrais, enfim aos seus territórios, sem a presença de homens gananciosos, ávidos por destruição e contaminação. Dia em que a sociedade brasileira precisa voltar-se para o seu passado e entender que a constituição de nosso povo é pluriétnica. Somos a miscigenação de vários valores culturais, inclusive com o sangue indígena percorrendo as nossas entranhas, apesar do predomino dos valores de uma elite, que insiste em provar o contrário, como Darcy Ribeiro atesta nesta sua fala: “O Brasil, último país a acabar com a escravidão tem um perversidade intrínseca na sua herança, que torna a nossa classe dominante enferma de desigualdade, de descaso”.

Índio não existe, a não ser na cabeça de um colonizador europeu que saqueou as nossas riquezas, deixando um rastro de destruição, em meio aos povos originários que aqui, já estavam milenarmente. Somos frutos dessa herança colonial perversa desde que o mercador Américo Vespúcio, denominou de “índios” aos que aqui habitavam, pensando estar chegando às Índias. Termo genérico, demonstrando um total desrespeito a diversidade linguística, cultural de saberes ancestrais, caracterizando e reforçando o seu pensamento eurocêntrico da época.

A Campanha da Fraternidade deste ano pode nos ajudar a refletir e superar esta herança colonial, sobre as questões indígenas em nosso país. A educação tem um papel preponderante quanto a uma leitura inculturada acerca dos povos originários, conhecendo-os mais de perto, como está descrito no Artigo 231 da Constituição Federal de 1988: “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.” Nos meus mais de 30 anos trabalhando com os povos indígenas estou cada vez mais convicto que temos muito que com eles aprender.

O Dia dos Povos Indígenas não pode ser somente no dia 19 de abril. O dia deles é todo dia, principalmente se os deixarmos viver como desejariam, sobre os seus territórios. Quando as escolas pintam as crianças e as fazem ficar emitindo sons desconexos e de forma caricata, elas estão prestando um grande desserviço à causa indígena. O melhor seria convidar uma liderança indígena e pedir que esta faça uma fala sobre os principais desafios que os povos indígenas estão enfrentando na atualidade, sobretudo neste atual contexto nacional. Verão que se pratica um verdadeiro genocídio com os povos indígenas.

O que devemos fazer, perguntaram as pessoas próximas do apóstolo Pedro depois de perceberem que haviam sido manipuladas pela classe dominante, ajudando a assassinar Jesus. Pedro então respondeu: “Convertei-vos…” (At 2,38) Conversão que é o imperativo de todo aquele e aquela que se coloca na caminhada com Jesus. Mais do que “fazer”, somos desafiados a “ser” com Jesus, assumindo a cada dia o compromisso de lutar para construir um mundo melhor, onde haja paz, justiça, fraternidade, igualdade e pão em todas as mesas. Do contrário, continuaremos engrossando o coro daqueles que assassinaram Jesus e continuam fazendo o mesmo com os sofredores de hoje, inclusive com os indígenas. https://www.youtube.com/watch?v=X0YeYBEM-SI

Sejamos “Madalenas”, na vida de Jesus e na caminhada com o Ressuscitado. Ela que viu e acreditou: “Eu vi o Senhor!” (Jo 20, 18) Viu, acreditou e anunciou com o seu testemunho de mulher, sem medo de ser feliz. Jesus está vivo e está presente no meio dos seus. Não há o que temer. Fracassaram aqueles que atentaram contra a vida de Jesus, tentando impedir de prosperar o seu projeto messiânico. Fracassarão todos aqueles que atentarem contra as vidas de inocentes, pois o Deus da vida é com eles, se faz com eles. A esperança vence o medo sempre. De esperança em esperança, mesmo que haja fracasso. Por falar em fracasso, relembramos o que disse o meu conterrâneo Darcy Ribeiro: “Meus fracassos são minhas vitórias. Eu detestaria estar no lugar de quem me venceu”.